GAMBOA, é pura cultura!


Banquete literário

"Thálassa" é título do poético pequeno grande lindo livro de Francisco Ivan. Nas cem páginas sobre o mar e a mar, Chico Ivan escreve com sutileza de "filho que das coisas do mar foi ilustrado". Um doutor que diz nada fazer para perturbar o repouso de rosa da própria mãe. Fui aluno de Francisco Ivan quando estudei Letras na UFRN. Nas salas do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, tomei goles de saber e viajei na convicção de suas teses literárias. Exercendo direito e dever de estudante, entrevendo nuança pertinente, teve vez que intervi. Professor Francisco Ivan, seguro, lapidando o que eu falara, não perdia o fio da meada de sua exposição. "Thálassa" irá ao domínio público pela Sebo Vermelho Edições, nesta segunda-feira, 16/06/2008, a partir das 20 horas, na Biblioteca Central Zila Mamede.

No momento que me vejo acossado por impertinente corrupção, na hora que me sinto roubado, repenso no vinil do MBP4 dos anos 1980. "O que será de nós, quando, daqui a dez anos, lembrando os dias de hoje, dissermos: Bons tempos, hein!" Não pedimos pra nascer. Nascidos, nada nos deve impedir de gostar do bom e do belo, traçar programa que produza paz, edifique bem, instigue solidariedade, construa fraternidade. Andando pra cima e pra baixo, na esquerda, na direita e na diagonal, vi vida brotando em córrego, jacaré mergulhando no lago, bagre brincando rio adentro, avoador no ar do oceano, árvores centenárias, trilhas rurais e ruas urbanas.

Quem viu melhor que eu a sobrevivência do milho, da cabocla velha, da lavadeira do Rio Vermelho, a mulher cozinheira, a mulher do povo, a mulher roceira, a mulher da vida, foram os olhos aguçados de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a goiana Cora Coralina. Auta de Souza chegou-me psicografada por Chico Xavier e levou-me às esmeraldas e à roseira brava da sensível e arguta Palmira Wanderley. Chamou-me atenção Gothardo Neto observando folhas mortas. Mais na frente, a alma deserta, de Sebastião Fernandes, e a alma patrícia, de Câmara Cascudo. No quarteirão dos macauenses, Monsenhor Honório chorando com os pobres; vovô Venâncio Zacarias falando a trabalhadores e João de Aquino numa feira de antiguidades. Numa quadra próxima, cruzmaltinos sambam ao ritmo de Jamelão, no passo da estação primeira de mangueira. Gente produzindo felicidade enraíza em mim a crença no céu invisível.

Caro leitor, graças a Deus e ao meu irmão Rosenberg, sou torcedor pó-de-arroz. As alegrias e tristezas de tricolor das laranjeiras, divido com o mano Bego, com o dramaturgo Nelson Rodrigues, com o cego que vê tudo que acontece nas quatro linhas do campo, com o mestre Telê Santana, com Lulu Santos, Chico Buarque e muitos outros. Quanto à derrota para o Sport Club do Recife, não foi só do Fluminense. Todos que enfrentaram o time de Zé do Rádio, na Ilha do Retiro, sofreram o mesmo drama. Tem nada não..., há males que vêm para o bem. O Flu antevê a chance de ser campeão mundial e o Sport põe o nordeste brasileiro no panteão dos libertadores da América.

É fantástico! Exército do Brasil e Justiça Estadual de Pernambuco juntam-se ao regente sinfônico, natalense e universal Cussy de Almeida Neto, e montam orquestra com garotos de comunidade periférica de Recife. Quarta-feira passada, no Bar de Pedrinho, na rua Vigário Bartolomeu, em frente ao Shoping Popular, no Centro Histórico de Natal, juntamente com jornalista, artista plástico, escritor, produtor cultural, músico e sebista, tendo como anfitrião o editor Abimael Silva, participei de um banquete literário, regado a cachaça, cerveja e prato do mundo – baião de dois com sardinha ao molho de tomate. Rolou de um tudo, de José Lins do Rego a Jorge Amado, Neil de Castro, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Marques.

Papai, Floriano Bezerra, em poesia, compara o Campo Agrário a um "vulcão velho... intermitente. Ruge à luz da lua e vomita à luz do dia". Ah! Isabel pediu que Maria me lembrasse o evento de hoje à noite, no campus da universidade pública implantada durante o governo Dinarte Mariz. De nau catarineta, pelo mar salgado, vou chegar até lá.

 

Renan Ribeiro de Araújo – Advogado renanadvocacia@hotmail.com



Escrito por Teodósio às 13h21
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Um nó que se desfez esparramado, estilhaços de tudo...

Eu, você o mundo e só!

Tudo!

  Te amo, te amo

 te amooooooooooooooooooooo!

                                     Teodósio

        

 



Escrito por Teodósio às 08h58
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O RECIFE AMANHECEU EM FESTA,

E O NORDESTE NA LIBERTADORES DE 2009!

PARABÉNS

SPORT CLUB DO RECIFE

CAMPEÃO DA COPA DO BRASIL DE 2008

 



Escrito por Teodósio às 08h49
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    Aurora, beco e segunda-feira

 

Não tenho como agradar todo mundo ao mesmo tempo. Não consigo assoviar e chupar cana no mesmo instante. A vida expressiva que emerge debaixo da linha do equador, na civilização tropical, é como brilho solar que não pode ser visto a olho nu. Não tiro de mim a mestiçagem que gosta de vinho português e de banana ipanguaçuense. Apesar da violência que estiola a cidade e o campo, da inércia social da vanguarda artística pós-moderna e da apatia que amortece o potencial transformador da intervenção popular na esfera política, as coordenadas tridimensionais de meu cérebro permanecem sensíveis à emoção poética.

Perguntei ao filósofo investigativo J. Helmut se havia justiça na absolvição do fazendeiro acusado de encomendar a morte da religiosa Dorothy Stang, assassinada em 2005; e se merecia ter mãos o assassino que matara várias crianças, de uma vez só, no Japão de 2001. Helmut, com fugidio olhar de sonho seqüestrado, falou-me que “a voz da aurora, suave, como a de ninguém, ecoa nos altos montes e brilha fulgente, fazendo a passarada voar, com seu canto contente, até não mais ser ouvida ou brilhar! Quem a contemplou nunca irá esquecer!”. Percebi que o nobre andante preferia falar doutras coisas. A enigmática resposta do autor de “História de um crime hediondo” fez ecoar no centro histórico de Natal o som cerebral dos poemas de Coralina Coralina e a transpiração boêmia dos becos de Goiás. Calei-me, contemplado.

Na Ceará-Mirim de Ojuara, com enlace matrimonial marcado, um noivo pediu à noiva um gesto forte de amor. Queria uma prova da virgindade. A moça interpretou o pedido ao pé da letra, foi ao itep, obteve laudo comprovando ser virgem e entregou ao desconfiado rapaz. A cidade inteira ficou sabendo do caso e o moço virou motivo de chacota em todas as esquinas. Ninguém conseguia entender que após oito anos de namoro a moça continuasse virgem. Desolado, o noivo acabou o casamento. Resultado: inconformada, a moça entrou na justiça, requerendo ressarcimento de gastos com a festa que não se realizou e indenização por danos morais. Três anos depois, o judiciário condenou o ex-noivo a pagar metade das despesas realizadas pela ex-noiva, mas negou o pedido de dano moral. A pendenga segue em recurso à segunda instância. O ex-noivo hoje é marido de outra, mas a ex-noiva, aos 37 anos, diz que ainda pensa em casar na igreja, virgem.

Sabendo existir lógicas variadas e dogmas avariados, é incógnito como a magistratura francesa decidiria a questão. Fato é que ainda hoje a crônica jornalística dá conta da existência de acontecimentos hilariantes e outros que nos deixam atônitos. “Ciganos tomam ruas de Roma para protestar contra xenofobia”. Ostentavam frases “Todos somos filhos do mesmo pai”, e, “Nascido condenado”. “Jovem é preso ao tentar explodir supermercado em Salvador”; “Na Casa do Cordel, diante de cordelista, de juiz de direito, de advogado e de chargista, maluco expressa tese a favor de Deus, do índio e do ambiente inteiro”; “Adolescente morre em brincadeira de roleta-russa”; “Ausência de violação da lei penal faz programa policial perder a graça”.

Cruzei o Beco da Quarentena de ponta a ponta e não entendi porque antes ele era a Rua das Donzelas. Tu és capaz de me explicar, leitor? Numa noite de estrelas azuis, amareladas e avermelhadas, num sábado sedento, ao mesmo tempo em que o jornalista Fernando de Moraes, escritor de “A Ilha, um repórter brasileiro no país de Fidel Castro”, anunciava a abertura do baú de diários do best seller Paulo Coelho, a via São Pedro alia-se aos becos da revolta, das galinhas, das garrafas, da vaca e das quatro bocas, e chama as Três Marias, Alfa-Centauro, Sirius e Rigel para protegerem a realização do festival de música do beco da lama. Foi antológico o show de Mirabô Dantas na final do III MPBECO.

Perdão Ignácio de Loyola Brandão e “O homem que odiava a segunda-feira”. Estou na introdução ao estudo da linguagem das formigas. O horóscopo indica a terça como meu dia positivo, mas é na segunda que amanheço mais vontadoso de ler o vespertino “O Jornal de Hoje”.

 

 

    Renan Ribeiro de Araújo – Advogado    renanadvocacia@hotmail.com



Escrito por Teodósio às 08h06
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Domingo

hoje é domingo devo me levantar as dez ou onze horas!

Que nada vou me picar para praia, num salto fulminante deixo pra trás a cama e um amontoado de lençóis coloridos. Vou caminhando ofegante na esperança de perder alguns quilos  “mas ta foda, confesso que ta foda”!  calma Dr. Ricardo, paciência, eu chego lá! De súbito lembro-me de minha infância em companhia de meus 50 quilos correndo nos manguezais em busca de caranguejos, atravessando a gamboa do porto (indo e voltando) e nos dias de são Pedro com um feixe de lenha nas costas, aquilo era nada pra mim! E ainda sujo de lama armava e acendia a fogueira. É, os tempos passam, realmente os tempos passam.  Jamais imaginei um dia, meu Deus chegar a este ponto, 88 quilos e um enorme sentimento de culpa!  Fui de prazeres a piedade e quase que não chego ao destino! Ofegante, cansado, o coração a mil por hora, mas continuo, de vagar eu chego lá! E não é que cheguei mesmo! A praia linda de areias claras abençoada por nossa senhora da piedade, tudo calmo, tudo azul tudo tão tranqüilo que nos irrita, e nos faz também esquecer os problemas, sento no muro da bela igrejinha e observo o mar azul, as crianças brincando numa paz extraordinária e os pais sem se preocupar com as mesmas, deixam a manhã dominical passar preguiçosa. Pulo na areia ainda fria e caminho sorridente, com tudo aquilo que está acontecendo não existe motivo algum para lágrimas ou lamentações, paro no final do muro e observo mais ainda o mar, sinto seu cheiro, sua fúria seus chiados, sinto que o mar me chama, mas ali! Puta que pariu! logo ali em frente a igrejinha onde os tubarões adquiriram o hábito de devorar surfistas e banhistas, mas vou, tudo tão mágico e dominical, acho que tubarão algum teria a coragem de acabar com aquela paz. O mar está frio e agora se acalma um pouco, sinto o gosto salgado do mar, depois de retornar de um mergulho noto que um salva – vidas me fita, mas está tudo tão tranqüilo, nem avancei os seis metros como nos pede a placa e também acredito imensamente que nenhum tubarão acabaria com aquela paz, como já disse antes. Agora bebo uma água geladinha e vou caminhando, tudo claro, tudo celestial, mas a hora passa tão depressa que nem percebo, e tenho que voltar pra casa o sol hoje foi de uma camaradagem nunca vista comigo, estou aqui vermelhinho, vermelhinho e sem queimadura alguma na pele. Faço o mesmo percurso de volta pra casa só que desta vez paro no Confraria um barzinho de um amigo, um grito de gol me chama atenção, final da copa do mundo de futebol feminino: Brasil x Alemanha e eu nem sabia, um jogo muito interessante onde as meninas davam uma aula de futebol, mas infelizmente a Alemanha domina todo o segundo tempo do jogo que resulta em um golaço da artilheira Prinz, até aí tudo bem, estava no início da segunda etapa, e nós contávamos com a  habilidade de Marta obrigado! Ao passar o jogo sem muitas jogadas que levem perigo a defesa Alemã a atacante Cristiane já prestes a converter o gol, foi derrubada dentro da área pela lateral Bresonik a nossa Marta para nossa alegria corre ligeiramente em busca da bola como quem diz: esse pênalti eu não perco por nada! Dava pra ler em seus olhos negros, mas desta vez a goleira Angerer levou a melhor e defendeu a cobrança de Marta, final do jogo, a Alemanha vence o Brasil por dois a zero e não vi no Confraria choros nem reclamações nem lamentações, enfim era final de uma copa do mundo que estava perdida naquele domingo, 30 de setembro de 2007, amar o futebol a gente ama o mundo inteiro sabe disso, ah! É que tinha esquecido o quanto somos preconceituosos! Mulheres que jogam maravilhosamente bem e que trazem na vaidade um diferencial que poderia muito bem  nos incentivar a assistir os jogos da seleção já que os clubes, quem sabe onde joga a Marta, a Cristiane ou a formiga? Só sei que São mulheres de batom nos lábios, cabelos lisos e cheirosos e de blusa orgulhosamente amarela, só que com um diferencial, encharcadas de suor.  Continuo a caminhada, a cidade agora fervilha de gente, muito barulho, gritaria, é motivo para me recolher em casa, ninguém hoje veio aqui em casa, depois de um maravilhoso banho deito-me largado no sofá e ao som de Belchior adormeço como um anjo, sim, como um anjo pois era muita paz, tudo perfeito para mim, e quando acordo lembro-me de Deus e  percebo o quanto ele é bom, nos proporciona coisas que nem percebemos ser importantes em nossas vidas, e tudo inteiramente de graça.   

 

 Teodósio. 30.09.2007

 




Escrito por Teodósio às 10h47
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Estilhaços de mim

 

A penumbra, o triste silêncio que faz doer...

Mecanismos de emoções e sentimentos

Singelamente gritado

Numa matinal masturbação,

Solidão urbana, tranqüila, de prazer...

Num espelho como num prisma,

Refleti teu corpo... e eras santa!

Aspergido, vindo do mar!

Solidão, almas distantes, incomuns, platônicas...

Na ânsia desmedida de te ver, virei flagelo,

Nesta calma e enfadada romaria, serei fiel...

Idólatra dos desejos distantes,

Que anda descalço, e ainda que ferido pelo cardo

Que a vida me compraz, sigo adiante, em tuas procissões.  

 

                                                                          Teodósio

 

 



Escrito por Teodósio às 08h47
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Lembranças de um tempo               

Muitos livros marcaram minha existência. O despertar para o saber se dá gradativamente. Letras encontradas e combinadas me fizeram rir, chorar, ampliar visão e esmerar o poder cognitivo. Em que pese carregar em meu corpo e espírito o gene de lutador social inserido no furacão da política dos anos 1960, só na adolescência dei passos tênues, mas firmes, na compreensão do contexto sócio-político-econômico-cultural em que vivia. O Brasil sob ditadura militar, imprensa acintosamente censurada, opositores do regime de exceção impiedosamente perseguidos.

Para o leitor ter idéia do que significa obscurantismo, no dia 30 de novembro de 1964, Macau foi invadida por um comboio de onze viaturas e oitenta e quatro militares do Exército Brasileiro. A península das salinas entrou em polvorosa. O aterrorizante aparato repressor, na ocasião, sem ordem judicial, prendeu e humilhou publicamente dois homens públicos: meu pai, Floriano Bezerra de Araújo, então sindicalista e deputado com mandatos já cassados por ato institucional, e o genitor de mamãe, micro-empresário e vereador José Ribeiro da Costa.

Vovô Ribeiro talvez tenha sofrido o abuso simplesmente por ser sogro de papai, vez que era capitalista confesso e próspero homem de negócios. Floriano carregava o estigma de líder sindical combativo, fundador e presidente da Liga Camponesa do Rio Grande do Norte. À época tinha eu dois anos de idade. Ao crescer, em conversações e comentários em torno de nossas vidas, cidadãos de mais idade me contaram que uma verdadeira multidão acorreu à ponta do aterro, na entrada da cidade, e acompanhou o procedimento abusivo. Viu papai e vovô sendo arrancados do seio familiar, conduzidos na carroceria de caminhão reo, com destino ao cárcere, em Natal. Ainda na região salineira, militares vasculharam a propriedade de vovô Ribeiro no distrito de Diogo Lopes e a Fazenda Varjota, da família Honório da Silveira, dizendo estarem à procura de armas. Nada encontraram. A diabólica execração pública apavorou em todo o percurso até a capital.

Mamãe, com 22 anos, cinco filhos e o sexto prestes a nascer, naquela data ficou sufocada, em prantos. De uma vez só carregaram seu marido e seu pai. Sem ter a quem recorrer, orou diuturnamente à Santa Maria mãe de Jesus Cristo, pedindo intervenção de Deus em proteção dos entes queridos. Fez promessa a Santa Rita de Cássia para que o impossível acontecesse, o pai e o marido retornassem logo, sãos. O milagre aconteceu. Zé Ribeiro foi solto quatro dias depois e Floriano retornou a casa na noite de 11 de dezembro. Ao anoitecer do dia seguinte, nasceu mais uma irmã. Cumprindo o prometido, foi batizada e registrada com nome Rita de Cássia Ribeiro de Araújo.

Iniciei lendo gibi: bolota, gasparzinho, brotoeja, luluzinha, bolinha, pato donald, tio patinhas, mickey, recruta zero, professor pardal, zé carioca, homem aranha, homem de ferro, batman, fotonovela, capricho, contigo, bianca, júlia, faroestes de bolso, almanaque fontoura e a história do jeca tatu, Monteiro Lobato, Sítio do Pica-pau Amarelo... Fui ficando ávido por leitura. Da estante de papai, li obras de Gilberto Freire, Dostoiévski, milhares de páginas de Tesouro da Juventude; Gondin da Fonseca sobre petróleo; Vida de Grandes Estadistas Americanos; Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Robespierre, o incorruptível, de Ralph Korngol; Até Quarta, Isabela, de Francisco Julião; História e Desenvolvimento, de Caio Prado JR.; Brasil: Radiografia de um Modelo, de Nelson Werneck Sodré; Sínteses, de Edinor Avelino... Entrei no movimento por paz, democracia e socialismo, procurando respostas para perguntas que permanecem em aberto.

 Erguendo bandeiras de amor, justiça, estudo e trabalho, encontrei-me com a fé e a esperança. Sou como você, leitor. Dia 24 de maio foi o dia de Santa Sarah, protetora dos ciganos, viva! O III MPBECO acontece com sucesso. Na terça, 03 de junho, o artista Carlos Zens, criado nas Rocas, estará lançando o CD “Arapuá no Cabelo”, no Mercado de Petrópolis, e o cantor Carlos Bem, assuense de abril de 64, estreará, no Teatro Alberto Maranhão, o show do disco “diversidade genuinamente potiguar de música de poesia e industrialização”. Domingo, 25/05/2008, minha irmã Rita de Cássia comemorou bodas de prata do seu casamento com José Maurício, o “rei” Cural. Os Araújo se reuniram numa festa singela.

 

Renan Ribeiro de Araújo – Advogado    renanadvocacia@hotmail.com

Escrito por Teodósio às 08h09
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                                    Além do horizonte

 

O impulso criador de melhor qualidade de vida na cidade alimenta-se de opinião pública livre, exigente, atenta, informada e animada a construir fraternidade. A estratégia de descentralização do poder é multilateral e passa longe da vontade da hidra oligárquico-caciquista. Lógico, mandões da atualidade querem continuar mandando. É legítimo? Do ponto de vista medíocre, pode ser. Em ótica científica, reeditam demagogia e populismo autoritário. As alianças rolo compressor buscam manter intactos os atuais hospedeiros do Estado. Pereniza prática totalizante travestida de democrática. O leitor vê a arrogância da esquerda endireitada e sabe ser ela incapaz de construir algo auspicioso. 

Para Natal ser acolhedora e solidária precisa que suas autoridades sejam sensíveis ao clamor por trabalho, salário digno, tráfego urbano inteligente, educação, cultura, esporte, lazer, saúde e segurança. O exercício pleno da liberdade requer variados canais públicos de cidadania ativa. A democracia que limita o horizonte da população aos anseios de caciques políticos não permite a plena participação cidadã. A investida que atropela instâncias partidárias, destrói partidos políticos construídos a duras penas e asfixia espaços democráticos, é como transgênico destruidor da biodiversidade. Quem pisoteia o jardim da emancipação popular bloqueia e retarda a gestão pública democrática da municipalidade. Por tal caminho a violência não aliviará. 

Nunca tinha ouvido Sua Excelência deputada federal Fátima Bezerra pronunciar a palavra deus. Na última vez que a vi falando na televisão a eleita de Garibaldi e Vilma repetiu o termo três vezes. Porém, a influência coercitiva do discurso porta-voz do progressismo delubiano aponta para um fazer contrário ao sentimento que animou Cristo Jesus. A fala da parlamentar candidata a reinar sobre a cada vez mais problemática metrópole potiguar remeteu-me aos cacoetes dos políticos antiquados que soterraram politicamente a minha querida terra das salinas. Quem acredita em Deus não oblitera as luzes e as forças das massas em ascensão. Governabilidade, paz e prosperidade nada têm a ver com tese falsa de coronel escravista. Não quero ser implacável, nem prejulgar, mas nutro justificada desconfiança nas arrumações que desdenham de tudo que aprendi. O utilitarismo que confunde tribuna falaciosa com o céu esplêndido é incapaz de ver o esgotamento, estresse e falta de paciência que vem tomando conta da urbe do poeta Jorge Fernandes.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, em 2003, se reportando ao seringueiro, sindicalista e ativista ambiental xapuriense Francisco Alves Mendes Filho - Chico Mendes – assassinado a mando de fazendeiros, em 22 de dezembro de 1988, disse o seguinte: “Chegou a hora de a nação dar um basta. O povo brasileiro não admite mais ser humilhado, massacrado, dizimado como a Amazônia. Não, não pôr na cadeia quem apertou o gatilho só para dar uma satisfação a opinião pública mundial. Chegou a hora de romper com todo esse sistema corrompido e arbitrário que municia as mãos assassinas e que nas duas últimas décadas promoveu um intenso  processo de concentração de terra e de renda”. Não se trata, portanto, de ser a favor ou contra o Lula, mas, sim, de, com boa vontade, verificar os fatos e constatar a direção que eles estão tomando. A renúncia da seringueira e senadora Marina Silva ao Ministério do Meio Ambiente traz à tona o debate sobre o efeito deletério de se dizer uma coisa e realizar o oposto do que se disse. O prometido, não cumprido.

Ainda assim, o novo se faz presente: dia 14 de maio de 2008 nasceu Pedro Ivo, primogênito de Ivanaldo Bezerra, Juiz de Direito, meu primo, e de Edilene. Papai, ex-deputado Floriano Bezerra de Araújo, anuncia para breve o lançamento, pela Editora Sebo Vermelho, do seu livro de memórias intitulado “Minhas Tamataranas: Linhas Amarelas”. Salve! O músico iracundo Admilson Santa Cruz me sugeriu ler “Ratos e Homens”, obra literária do escritor estadunidense John Stein Beck, Nobel de Literatura em 1962.  

 

                                                                                                                                                                     

                                                                                                                                                                                                      Renan Ribeiro de Araújo

                                                                                                                                                                                                                               Advogado



Escrito por Teodósio às 18h23
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Abril e geração telenovela

A bengala de ouro, cingida de diamantes, e as lentes de contato de última geração esperam, sob forte esquema de proteção, o barão do dinheiro. O magnata acorda, espreguiça-se e sinaliza. A tecnologia avançada capta sua vontade e logo vem ao seu inteiro dispor o atento e leal consultor de investimentos futuros. Sem alvoroço o abastado dá os primeiros passos no novo dia. Doutorados e doutorandos lhe trazem café à cama e aclimatam o ar condicionado. Controle remoto à mão, o homem poderoso liga a TV de LCD e toma-se de enfado. Desliga. Cem anos de imigração japonesa no Brasil fundaram a segunda nação do sol nascente. O majestoso neoliberal ri o cínico sorriso herdado dos cafeicultores paulistas e agropecuaristas mineiros da República Velha. Pega o livro de cabeceira, “Evangelho da vida fácil”, abre na página 2008. Está feliz. O tormentoso aprendizado das últimas décadas lhe ensinou que jogo de cintura não faz mal.

Virou quimera o pesadelo da transição para a democracia. Aquele barulhento brasileiro do final do século XX, incisivo, irreverente, na rua, carregando um sapo revolucionário barbudo como amuleto, sumiu. O temor de ver Leonel Brizola presidente - nacionalista contestador da aliança para o progresso imperialista - se foi. Tempos idos, vencidos. Num luxuoso baú, arquivos implacáveis. A foto esmaecida de Juscelino Kubitschek, o ex-chefe da nação que construiu Brasília. Na calma da manhã chuvosa, o barão revê revistas dos últimos sessenta anos. A guerra fria, GetúlioVargas voltando pelo voto direto, o suicídio, a carta-testamento, a ferocidade inconseqüente do governador Carlos Lacerda. O carismático Janio Quadros condecora Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul e, dias depois, renuncia à presidência.

Pressão contra a posse de Jango, o vice. A experiência parlamentarista, o plebiscito e o  avassalador sim ao presidencialismo. João Goulart assume, anuncia reformas de base, busca um país menos desigual. O golpe de abril de 1964, o regime militar. Obscurantismo, fim das liberdades democráticas, cassações, perseguições, exílios, seqüestros, prisões, torturas, desaparecimentos, mortes. Vinte anos depois, abertura política. Anistia. Tancredo Neves vence a última eleição presidencial no Colégio Eleitoral e morre antes da empossar. Absorto, pensando no passado ainda presente, o amo desperta com o toque do interfone. A secretária informa a chegada dos jornais matutinos e pergunta se deseja mais alguma coisa

Quatro décadas após a queda de Jango, o Brasil vira país privatizado, paraíso do lucro exorbitante, da indústria automobilística, da Nestlé, das Casas Bahia, dos leilões de poços de petróleo, das sementes transgênicas marcas Bayer e Monsanto. Aumenta o fosso entre os poucos ricões e os milhões de pobretários.  O primeiro mundo, satisfeito, sugere manter a coroa na cabeça do ex-metalúrgico com pinta de ator hollywdiano. O modelo vídeo-financeiro de capitalismo trouxe a tecno-ciência do mando. Embriagadas de isenção fiscal (a farra chega a cerca de 65 bilhões e 500 milhões de reais), abrigadas no telenovelismo e amparadas na vanguarda operária padrão, as multinacionais controlam, como nunca, os meios de produção e reprodução da vida. Greves passam a acontecer em ação combinada com os patrões.

Porta-vozes da flexibilização trabalhista e desregulamentação econômica viram celebridades. A idolatria do mercado desfaz no ar o universo humano. Desintegra a realidade e, via-satélite, faltando partes, em formato televisivo, diz devolvê-la integral, gratuitamente, ao telespectador. Até põe à venda imagem maquiada de competência e idoneidade. Para livrar-se da alienação, recuperar a liberdade e adquirir saber profícuo, ao invés de ler, basta emprenhar-se de telenovela. Sabe o leitor, a verdade não é essa, mas aparenta ser. Apesar de não ter bengala, diamante e lente de contato, o neo-romântico se enche de ânimo com coisas simples. O antológico show de MPB 4 e Toquinho, em Natal, é um exemplo. Afinal, em abril de 1916 Florbela Espanca já brindava a emoção com os contos “Amor de sacrifício”, “Alma de mulher” e “A oferta do destino”. Aproveito os sapatos de ferro de Florbela, calço-os e caminho...

 

 

                                                                                                                                                                 

 

                                                                                                                                   Renan Ribeiro de Araújo – Advogado  

                                                                                                                                              renanadvocacia@hotmail.com

 



Escrito por Teodósio às 09h20
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TENHO PENA

Tenho pena das mulheres que não gozam

Elas não sabem

Que sobre o colchão

A pele derrete

E que suas grutas ficam quentes

Como lava de vulcão  

Desconhecem a meninice dos dedos

Que pulam de um mamilo ao outro

E brincam de esconde-esconde

Sob a chuva de estrelas mil

Não imaginam para que servem as mãos

Nem para que suas bocas foram feitas - T

alvez seja por isso que falem demais 

Tenho pena das mulheres que invejam aquelas que gozam

Elas não sabemQue seus seios são frutas maduras

Morangos, pêssegos, pêrasPequenas cerejas

Mergulhadas em doces trufas  

Por suas pernas e ancas

Jamais escorreu o néctar dos deuses

A bebida sagrada

O mel branco que é alimento

Feito leite de cabra 

Tenho pena dessas mulheres!

Por que elas serão

Eternamente

Amargas

 

Mônica Montone



Escrito por Teodósio às 09h26
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.Sucesso! A Arte Merece.



Escrito por Teodósio às 15h56
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É na boca que tudo começa. A boca é a primeira janela que abrimos para o mundo quando pequenos: chave, panela, caneta, grampo, palito, cata-vento, moeda. Tudo cabe dentro da boca banguela.

Até as palavras!Até o sol cabe na boca quando é desejo de clarão e quentura. Quando é seio e solo. Quando é selo, pacto entre o querer e a alma.

Poesia tem em toda rua, poeta em todo beco, mas Sol na Boca só tem quem já naufragou nas próprias vértebras e se deixou apaixonar pelo vento. Só tem quem já quis se vestir com dois metros de sol poente. Quem ousou “comer a Madonna” e redescobrir Macunaíma. Quem escreve poemas para flauta e vértebra. Quem se torna um lavrador de palavras.

Mônica Montone



Escrito por Teodósio às 11h47
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.A Saudade não é só minha.

Como boa interiorana que sou, tempo de chuva é tempo de ir olhar a chuva.
       Infelizmente, este ano ainda tenho me limitado a fazer esta viagem pela internet. Mas, vou à Barragem Armando Ribeiro Gonçalves no próximo domingo, pois esse é um passeio que quem não fizer pode ser castigado. É a maior barragem do Estado e de lá está saindo uma grande quantidade de água, cujo destino é o mar e cujo percurso passa por inúmeras cidades no Vale do Assú, entre elas Macau.

       Macau é onde nasci. Cidade rica e habitada por uma população, em sua grande maioria, pobre; e que fica na região norte do RN, no meio de salinas. Dizem (e eu acredito) que sua altitude é quase a mesma do nível do mar.

       Nela passei minha infância e dela lembro, entre outras coisas, dos inúmeros banhos de chuva pelas ruas alagadas. Nela aprendi que não se toma banho na primeira chuva, que é preciso esperar a terra esfriar e deixar que as águas limpem as telhas. Mas, a partir da segunda chuva, pode sair correndo, pois não é permitido perder nenhuma oportunidade.
A maioria das casas tinha “biqueira”. Algumas baixas, onde sentávamos na calçada, e mesmo deitávamos, para que a água pudesse cair na cabeça; outras, altas e fortes, onde a concorrência era grande. Nestas últimas, formávamos fila para aproveitar o prazer daquele banho. As bicicletas tinham que ter as correntes previamente lubrificadas porque a aventura das chuvas exigia muita preparação até para elas. As águas das chuvas sempre ficaram empossadas nas ruas de Macau porque não tem como escoar. E, nelas mergulhávamos, brincávamos e corríamos felizes.
As ruas, as calçadas e as praças ficavam cheias de adultos e crianças. Era um ponto de encontro. Era um momento de êxtase e alegria.
O horizonte “lá de cima” era nosso guia. Sim, porque em Macau (e até hoje ainda é assim) bastava olhar pro céu “lá de cima” (a leste) para ver e calcular quanto tempo ainda duraria a chuva (muito ou pouco tempo). Se a “barra” (do horizonte) estivesse escura, a promessa de diversão não tinha tempo pra acabar. Se estivesse clareando, era hora de começar a retornar para as proximidades de casa. Não podíamos ficar muito tempo na rua depois da chuva acabar. Era perigoso... Era preciso tirar logo a roupa molhada.
       Era olhando pro céu na “barra de cima”, que também era conhecida como “boca da gamboa”, que a gente podia observar se os trovões ainda estavam longe. Dependendo de sua distância, podíamos ou não permanecer na chuva. A nossa segurança era garantida apenas pelo som. Enquanto ouvíamos os trovões, podíamos ficar na chuva, mas quando os relâmpagos começavam a se mostrar no horizonte, na “boca da gamboa”, era hora de voltar. Corríamos para dentro de casa, pois com relâmpago era perigoso ficar na chuva.

       Nos quintais, os cacimbões ficavam tão cheios que era possível tirar água com uma lata sem corda. As cisternas ficavam cheias de água pra beber e tínhamos certeza de que teríamos água o ano inteiro. Dentro de casa, o chão ficava molhado. Quem tinha piso de cerâmica na casa, que ficava escorregadio, era preciso enxugá-lo algumas vezes por dia. Quem tinha piso de madeira, via a superficialidade da água nas manchas sobre o chão.
       Nesse cenário, convivíamos com o imaginário da cidade virar “cama de baleia” e com o pavor dos mais velhos. Mas, apesar disso, nas proximidades de onde morava, nunca ouvi e nem vi nenhuma casa sendo inundada. As águas não passavam da calçada...

       Enfim, do meu mundo infantil, lembro que toda a cidade ficava disponível. Ir pelas ruas, a pé ou de bicicleta, sem destinos ou à procura daquela biqueira mais especial, é uma imagem que não se pode esquecer.
É devido a esse passado que continuo adorando a chuva e os trovões e olhando com admiração os relâmpagos. E sentindo, particularmente nos dias de chuva, um enorme desejo de voltar, de pegar o carro e aventurar chegar a Macau, para ficar na esquina da Casqueira ou na “área” da antiga casa de Vovó, olhando a chuva ou, mesmo, vestindo a roupa mais apropriada pra tomar banho de chuva.

 

 

Giovana Paiva de Oliveira

 

Profª. Drª do Departamento

de Arquitetura da UFRN

Fonte: Artemania

http://sebastião-maia.zip.net



Escrito por Teodósio às 11h40
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 .NOSSO SERTÃO É ISSO AÍ.

(Patativa do Assaré)


Patativa do Assaré

 

Caboclo roceiro

Caboclo Roceiro, das plaga do Norte
Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,
A tua desdita é tristonho que canto,
Se escuto o meu pranto me ponho a chorar

Ninguém te oferece um feliz lenitivo
És rude e cativo, não tens liberdade.
A roça é teu mundo e também tua escola.
Teu braço é a mola que move a cidade

De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça de enxada na mão
Julgando que Deus é um pai vingativo,
Não vês o motivo da tua opressão

Tu pensas, amigo, que a vida que levas
De dores e trevas debaixo da cruz
E as crides constantes, quais sinas e espadas
São penas mandadas por nosso Jesus

Tu és nesta vida o fiel penitente
Um pobre inocente no banco do réu.
Caboclo não guarda contigo esta crença
A tua sentença não parte do céu.

O mestre divino que é sábio profundo
Não faz neste mundo teu fardo infeliz
As tuas desgraças com tua desordem
Não nascem das ordens do eterno juiz

A lua se apaga sem ter empecilho,
O sol do seu brilho jamais te negou
Porém os ingratos, com ódio e com guerra,
Tomaram-te a terra que Deus te entregou

De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça , de enxada na mão
Caboclo roceiro, sem lar , sem abrigo,
Tu és meu amigo, tu és meu irmão.

 

O peixe

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a insconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

 

 

O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.




Escrito por Teodósio às 13h32
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Mônica Montone

 

 

não se trata de ficção: alguns pés tem alma!

Especialmente os que já pisaram em muita lama

Como o coração mal cheiroso de alguns homens,

 

Os meus são insanos!

Se vestem com os panos vermelhos e saem por aí

Roendo as unhas de um tempo que já não há

 

Os meus pés só existem porque eu insisto em dançar

Apesar das metas, planos e setas opostas ao meu querer

Apesar dos calos, dos falos e dos falsos

Eles dançam para que me ausente do que sou

E amanheça bailarina, doceira, merendeira

E amanheça qualquer coisa entre o eu e o nós

Amanheça esparramada no chão

Como um laço que perdeu o nó

Os meus pés dançam porque tem dó de mim.



Escrito por Teodósio às 09h13
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O primeiro dia

Miguel Sousa Tavares


O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.

Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.

Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.

Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.

Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.

“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.

Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”

Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.

Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.

 



Escrito por Teodósio às 21h17
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O velho de Alcântara-Mar

Por Miguel Souza Tavares

Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto «almoços de trabalho», almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.
O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.
Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por «Menina isto» e «Menina aquilo». Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos, mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.
Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um «vizinho» do restaurante — ocasionalmente almoça, mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo, mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da «patroa», sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.
Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse: «Então, escolhe lá o que queres almoçar».
Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção: queria ser visto, mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei: o seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.


Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2005, pág. 99.

 



Escrito por Teodósio às 21h06
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ESTILHAÇOS DE MIM

                     Teodósio Sena

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